O varejo físico brasileiro assiste a uma mudança estrutural na geografia do consumo. Se em décadas anteriores o sucesso de uma franquia de grande porte dependia quase exclusivamente de sua presença nos principais shopping centers das capitais, o planejamento estratégico das marcas líderes aponta para a pulverização em pontos alternativos e formatos de conveniência. A busca por eficiência operacional e por aluguéis que não asfixiem a margem do franqueado transformou pontos de rua, aeroportos, outlets, rodovias e até armários digitais automatizados nos novos campos de batalha do setor.
A maturidade do ecossistema de franchising nacional também se reflete na mudança de perfil dos investidores. Em vez de pulverizar o suporte técnico com novos entrantes sem experiência de mercado, as franqueadoras de alta performance decidiram priorizar os chamados multifranqueados — operadores experientes que já possuem uma ou mais unidades da rede e recebem o aval para colonizar novas praças.
A descentralização gastronômica da franquia do ano
Eleito a Franquia do Ano, o Divino Fogão — Comida da Fazenda — ilustra perfeitamente essa guinada geográfica. Tradicionalmente associada às praças de alimentação dos centros de compras, a rede estipulou a meta de inaugurar 42 novos restaurantes e atingir um crescimento de 20% em receita.
A sustentação dessa meta repousa na quebra de seu próprio padrão imobiliário. Após testar uma megaloja e uma operação pioneira em rodovia, a marca inaugurou sua primeira unidade de rua. A diversificação de formatos permite que a rede penetre em cidades de médio porte ou em bairros periféricos onde o custo de ocupação de um shopping inviabilizaria o negócio.
Disrupção na educação e lavanderias inteligentes
No segmento de microfranquias, o destaque ficou com o Kumon. A rede de apoio escolar, de origem japonesa e presente no Brasil desde a década de 1970, identificou na atual busca por complementação do ensino regular o cenário ideal para abrir 135 novas unidades.
A grande inovação do Kumon para acelerar esse processo de capilaridade é a abertura, pela primeira vez em sua história de quase cinquenta anos no país, para o modelo de multifranqueados. A marca identificou que operadores que já dominam as ferramentas de gestão pedagógica têm custos de transição drasticamente menores para assumir novas salas de aula, mapeando mais de 730 áreas com potencial de abertura apenas no território brasileiro.
“A captação de novos clientes não pode depender apenas da abertura de novas portas, mas sim da elevação da régua de eficiência de quem já está operando”, avalia o mercado.

Na categoria de Qualidade da Rede, a 5àSec adotou uma postura explícita de cautela expansionista, elevando as exigências técnicas e financeiras para novos investidores. De olho em um faturamento projetado de R$ 360 milhões, a multinacional de lavanderias aposta na tecnologia de proximidade. A principal cartada da empresa para o ano é a implementação de armários inteligentes (lockers) em condomínios residenciais e comerciais de altíssimo fluxo. O modelo estende o braço da franquia sem a necessidade de investimentos em infraestrutura física de atendimento ou contratação de mão de obra direta para o local.
Do suporte ao franqueado à corrida pela liderança logística
A satisfação de quem opera o negócio na ponta tornou-se a métrica de sobrevivência das redes. A YES! Idiomas projeta um incremento superior a 10% no faturamento e de 15% na abertura de novas escolas apoiada exclusivamente no reforço das ferramentas de suporte ao franqueado. O entendimento das marcas é que uma franquia insatisfeita gera custos ocultos de reputação que travam qualquer tentativa de venda de novas unidades.
Na outra ponta do varejo, onde o giro de produto físico é o coração do negócio, a Constance — destaque em Desempenho da Rede — desenha uma ofensiva agressiva. Com 20 lojas inauguradas e outras 30 em processo de implantação, a marca de calçados planeja fechar o ano com 60 novas operações.
O objetivo audacioso da grife é assumir a liderança nacional em número de pontos de venda de calçados até o encerramento do próximo ano. Para sustentar esse ritmo sem estrangular as lojas com excesso de estoque parado, a companhia investiu pesadamente na digitalização de sua cadeia de suprimentos (supply chain), utilizando algoritmos de previsão de demanda para abastecer as gôndolas de forma fracionada e preditiva. O varejo de franquias brasileiro aprendeu que, em tempos de juros e crédito seletivo, crescer com inteligência é o único caminho para não quebrar por excesso de peso.










