Como dois ex-funcionários da Ambev criaram uma startup de bootstrap que mira R$ 1 milhão sem usar mercado

Quando decidiram deixar os crachás corporativos da Ambev, Frederico Zillig e Natália Aly Claro carregavam uma bagagem combinada de duas décadas na gigante de bebidas — ele na gerência de marketing e inovação, ela na diretoria de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Essa escola, focada em escala e distribuição em massa, serviu paradoxalmente como o contraponto perfeito para a criação da Zuzzi. Em vez de mirar os canais de venda tradicionais, a startup de bebidas proteicas nasceu apoiada no modelo D2C (direct-to-consumer), transformando o TikTok Shop e grupos fechados de WhatsApp em seus principais pontos de venda.

A resposta do mercado validou o formato não convencional. O lote piloto da marca esgotou em apenas 12 horas de exposição digital. Com apenas três meses de operação oficial no mercado, a startup ultrapassou a marca de 6,5 mil latas comercializadas e projeta um faturamento de R$ 1 milhão até maio de 2027.

O crescimento inicial foi financiado sob o modelo de bootstrap (capital próprio), com um aporte inicial de R$ 160 mil dos fundadores — sendo R$ 60 mil para a concepção da marca e formulação do primeiro lote, e R$ 100 mil direcionados para a expansão da capacidade produtiva. Embora o fluxo de caixa atual permita a sustentação da operação, os sócios planejam abrir uma rodada de investimento Seed ainda em 2026 para financiar o ganho de escala e a transição para o varejo físico.

O paradoxo da “proteína que não é saudável”

A gênese da Zuzzi ocorreu fora dos escritórios, a partir de uma frustração pessoal de Frederico. Consumidor assíduo de bebidas voltadas para o ganho de massa muscular, o executivo foi alertado por sua nutricionista de que os produtos que consumia diariamente continham excesso de espessantes, adoçantes artificiais e compostos ultraprocessados. A máxima ouvida no consultório virou o mantra do novo negócio: “Não é porque tem proteína que é saudável”.

Para traduzir a necessidade de um produto verdadeiramente limpo (clean label) em uma fórmula comercialmente viável, Frederico acionou o conhecimento técnico de Natália. O objetivo era criar uma bebida proteica oposta aos tradicionais shakes de chocolate ou baunilha: algo leve, refrescante, gaseificado e sem base láctea.

Para fechar o trio de fundadores, a dupla trouxe o criador de conteúdo Dudu Godinho. Em vez do modelo tradicional de contratação de influenciadores para campanhas sazonais, Dudu entrou no contrato social como sócio minoritário e diretor de comunidade, assumindo a missão de humanizar os bastidores da fábrica e gerar conexão direta com os consumidores nas redes sociais.

A engenharia por trás da lata

Atualmente, o portfólio da Zuzzi se concentra em um único produto: a “Brisa Tropical”. Trata-se de uma bebida gaseificada com 15 gramas de proteína, 70 calorias e zero adição de açúcar.

A grande diferenciação técnica reside na substituição do soro de leite (whey protein) pelo colágeno hidrolisado. Como o colágeno sozinho não possui o perfil completo de aminoácidos essenciais necessários para a síntese muscular ideal, a área de P&D da empresa desenvolveu um blend complementar de aminoácidos isolados, equilibrando o valor nutricional sem comprometer a fluidez do líquido.

“A grande barreira do setor não é colocar a proteína na lata, é fazer com que o produto final seja leve e agradável ao paladar sem precisar mascará-lo com química pesada”, explica a operação.

De olho no crescimento do mercado de produtos de origem vegetal, a startup já iniciou pesquisas para o desenvolvimento de uma versão vegana. O desafio atual da equipe técnica se concentra em contornar o perfil sensorial residual característico das proteínas de ervilha, soja ou levedura, mantendo a transparência e a leveza que definem a marca. Atualmente, a fabricação é terceirizada e ocorre em uma vinícola localizada em São Roque, no interior de São Paulo, estrutura escolhida especificamente pela expertise no manejo de bebidas gaseificadas e envase em lata.

Do digital para as gôndolas: o desafio da distribuição

O ecossistema de bebidas funcionais no Brasil vive um momento de forte consolidação. Marcas tradicionais de laticínios correm para ampliar suas linhas de prontos para beber (RTD), enquanto marcas globais de suplementos tentam nacionalizar suas operações líquidas. Nesse cenário, a estratégia de comunidade da Zuzzi funciona como um escudo de margem de lucro, evitando as taxas de abertura de catálogo exigidas pelas grandes redes de supermercados.

No entanto, os fundadores reconhecem que o teto do modelo puramente digital para o setor de bebidas é baixo devido ao custo do frete de produtos pesados. A rodada de captação planejada para os próximos meses terá como foco justamente a arquitetura logístico-comercial para o varejo físico de nicho — como redes de academias, empórios saudáveis e mercados de proximidade.

Para quem aprendeu a distribuir cerveja nos rincões do país pela Ambev, o desafio agora é fazer o caminho inverso: provar que uma comunidade construída na tela do celular é forte o suficiente para puxar as vendas quando o produto finalmente chegar ao balcão de geladeiras do mundo físico.

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