Adeus ao feeling? Como os algoritmos reduziram o espaço do palpite na tomada de decisão dos fundos

A inteligência artificial deixou de ser apenas um setor atraente para investimentos e passou a ditar a própria dinâmica operacional do ecossistema de venture capital (VC) na América Latina. O estudo State of AI Latin America 2026, realizado pela gestora Hi Ventures, revela que 91% dos fundos de VC utilizam IA para analisar oportunidades de investimento (deals) no continente.

O dado sinaliza um crescimento exponencial na maturidade digital do setor. Há apenas dois anos, o índice de fundos que recorriam a algoritmos para apoiar a triagem de negócios era de 45%, o que representa mais que o dobro de adoção em um curto espaço de tempo.

A pesquisa contou com a participação de 54 das principais gestoras de fundos com atuação na América Latina. Ela detalha que a IA atua como uma ferramenta analítica multifuncional dentro das firmas, deixando de ser um recurso experimental para se tornar parte essencial da rotina corporativa de tomada de decisões de investimento.

Como os fundos de venture capital aplicam a IA no dia a dia

Os dados de uso coletados pela Hi Ventures demonstram que as ferramentas de inteligência artificial estão integradas às diversas camadas de gestão e operação das holdings:

  • Pesquisa e Inteligência: 85% dos fundos utilizam a tecnologia para pesquisa de mercado profunda e análise de inteligência competitiva;

  • Gestão de Portfólio: 63% usam algoritmos para o monitoramento contínuo e a geração de reportes das empresas investidas;

  • Modelagem Financeira: 59% aplicam ferramentas cognitivas para projeções, valuation e modelagem de balanços;

  • Compliance e Relações Governamentais: 52% utilizam a inteligência artificial tanto para comunicação institucional com sócios-cotistas (Limited Partners) quanto para auditoria de contratos e compliance.

Apenas 4% dos investidores consultados declararam usar a tecnologia apenas em tarefas básicas de prospecção (sourcing) e avaliação preliminar.

O ecossistema de ferramentas: Claude lidera a preferência no mercado

Ao mapear os softwares mais utilizados pelos executivos de fundos de investimento na região, o relatório trouxe uma surpresa regulatória e de mercado. A plataforma Claude, desenvolvida pela Anthropic, é a mais utilizada no setor, presente em 94% das firmas de VC.

O sistema ultrapassou marcas consolidadas globais, superando o ChatGPT (69%), da OpenAI, e o Gemini (65%), criado pelo Google.

Essa liderança do modelo da Anthropic se repete na infraestrutura técnica das startups latino-americanas: 83% delas usam o Claude em sua rotina técnica e 69% adotam o Claude Code como assistente principal na programação e engenharia de softwares.

Startups com “IA no core” viram prioridade máxima para captação

Para as empresas que buscam aportes de capital de risco, a presença de IA nativa na engenharia do produto virou o principal fator de atração. De acordo com a pesquisa, 61% dos fundos de investimento afirmam que mais de 60% dos aportes financeiros realizados nos últimos 12 meses foram direcionados para empresas com inteligência artificial estruturada no centro da estratégia de negócios.

O amadurecimento técnico do portfólio da região acompanha de perto essa demanda:

[Portfólio em Evolução]
  ├── 99% das startups utilizam IA ao menos internamente
  ├── 78% já integraram IA ao seu produto principal
  ├── 59% nasceram como startups nativas em IA
  └── 19% adicionaram recursos de IA a softwares antigos

A ascensão dos agentes de IA e a vantagem competitiva regional

O estudo aponta os agentes de IA — sistemas autônomos capazes de tomar decisões complexas e executar fluxos de trabalho completos sem a necessidade de intervenção humana constante — como a nova fronteira econômica. Atualmente, 57% dos fundos relatam que mais de um quarto de suas carteiras já implementou agentes operacionais e 72% das startups afirmam estar testando ou utilizando ativamente essa tecnologia.

“A IA deixou de ser um experimento para se tornar uma vantagem competitiva”, destaca o relatório da Hi Ventures.

Para Jimena Pardo, Managing Partner da Hi Ventures, a América Latina encontra-se em uma posição única e privilegiada nesta virada tecnológica em 2026. As taxas locais de adoção de inteligência artificial rivalizam com os índices de ecossistemas com maior PIB, como os Estados Unidos e o mercado europeu.

A executiva aponta que os fundadores de empresas no continente acumulam décadas de experiência na operação de negócios dentro de mercados complexos, burocráticos e com forte restrição de capital.

Esta conjuntura capacita as empresas locais a gerarem dados proprietários de alto valor. Trata-se de dados complexos que concorrentes globais não conseguem replicar com facilidade, transformando os gargalos históricos da América Latina em uma barreira de proteção estratégica e de atração de capital global.

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